quarta-feira, dezembro 17, 2008
segunda-feira, dezembro 01, 2008
Certidão de Nascimento
Um buraco negro
Noturno,
Soturno,
Que me toma as entranhas
E me enche de falta...
Não penso o que sinto
E não sinto o que penso,
Sou abismo em lugar nenhum,
No mais inóspito do meu âmago...
Minha angústia é maçante,
E nada interessante...
Pequena a olhares desatentos,
Mas insuportavelmente minha...
Não me sinto impróprio,
Quando estou sem mim...
quarta-feira, julho 16, 2008
Vida adulta
O absinto, eu já não sinto
A poesia, perdi,
larguei-a por descaso
assim mesmo, sem querer
a perdi por aí...ao acaso,
Não sei se por amar demais,
Ou se por me perder em tudo o que
não me sou...
Vou me deixando aos poucos,
deixando meu juízo,
deixando minhas vontades,
minhas notas e vísceras...
meu coração e minha vez...
Vou me transformando lentamente
No copo derramado,
Vou me transtornando exatamente
Ao que me foi desejado,
Vou me contornando cegamente
Num sorriso desbundado,
Vou me transbordando nulamente
Como um segundo desperdiçado,
Abandono meus sonhos todos,
E me ponho um fim, sem fim,
Feneço de um eterno vir a ser,
Que se fez, e já não é
Minha humanidade,
não interessa mais
ninguém,
que mal fiz eu a deus?
Não sabia que era apenas homem?
Agora tudo é pronto, e letal
Agora tudo é ponto, e final.
segunda-feira, março 31, 2008
De lírios à vidas breves
Estou atado a todas as minhas palavras,
Não sou nada além de palavras
Que vacilam e perdem significado,
Que não são nada além do que são,
Quando estão sós...
Já que palavra eu já nãosou,
Navego por um mar que eu mesmo criei
Me afogo e me volto a vida,
Constantemente, num temporal
Onde o mar e o choro se fundem em um só lamento,
Um vai e vem descontínuo,
Uma melancolia mórbida e amarela,
Vejo-me preso a sorrisos dos quais ñ pertenço,
E me omito,
Omito todo o meu ser,
Recolho minhas lágrimas e distribuo sorrisos polidos,
Acredito nas minhas mentiras,
E me conforto na minha eterna falta...
E não me prendo a nada mais...
Sou o delírio de quem é vivo,
E existe.
domingo, fevereiro 24, 2008
Deixa de lado o depois,
Se já foi um,
Agora somos dois,
Pra que umedecer os lábios com ilusões,
Se a nossa soma é cede pros corações?
É...
É o amor sorrindo para o dia que já se fez,
Se despedindo de tudo que se desfez,
De todo não ou talvez,
A vida fez-se, sim!
Só pertencemos a nós mesmos,
E o nosso desejo é uma canção,
Então larga esse medo, corrente,
Medo de dar certo é falta de querer,
Por que é tão triste viver,
Quando o amor,
Vira um eterno vir a ser.
domingo, janeiro 06, 2008
Transcendência dos Sentidos
Estava ela alí sentada no bistrô a mais de duas horas. Sozinha, acompanhada apenas pelo cigarro e o café. As marcas tênues da idade lhe marcavam o sorriso, mas os olhos pálidos ainda revelavam, profundos, a essência que lhe fora secretamente escondida com o decorrer dos anos, com o abandonar das inocências.
A inquietude lhe tomava a respiração, desregrada ela tragava o ar que cheirava a uma solidão medida, uma solidão que só se conquista com a aceitação de sua condição humana, sua eterna finitude. Quando isso havia lhe acontecido? Quando resolveu ela, abrir mão de sua liberdade? Quando foi que se aprisionou fora de si e legitimou a morte de suas fantasias? Quando optou por sua vida tão medida? O óbvio cotidiano lhe fugira das mão, quis deixar cair.
Sua vida lhe subia aos olhos junto com a fumaça do cigarro e seu coração pintava nostalgias preto e branco. Os tiros criminosos que lhe arrancaram a ingenuidade, as flechas desferidas em seu peito, os segundos que dividem uma vida
Tinham lhe tirado algo tão especial, tão seu, que ela já não sabia mais dar nome ao perdido. Com a alma nua, não sabia mais o que pensar do que fora feito de si mesma. Sua nudez de espírito lhe apavorava e confortava, era ambiguamente dolorosa e de uma vivacidade deliciosa.
Na borra de café no final da xícara, viu sua infância. Suas fugas lúdicas tão cheias de lirismo que sua condição adulta lhe havia tomado. Tudo carecia de um conformismo difuso, de uma aceitação do que talvez nem sempre lhe fosse cabível.
Repousou o queixo na mão direita, com o braço apoiado na mesa. Assistiu a rua resplandecer. Fechou os olhos. Ouviu o universo inteiro, dentro de uma caixinha de segundos, seus olhos oceânicos despertavam e; foi no vôo de uma pomba doente que seus lábios dilataram, e como borboletas que se espalham no erguer de um novo dia, seu sorriso se fez.
Pediu a conta ao garçom, pegou seu cachecol verde que estava ajeitado delicadamente na cadeira. Andou em direção à porta com a coragem e o choro soluçado de quem vem ao mundo... E partiu.